Depois de um longo e quentíssimo verão europeu, chegava o momento de finalmente enfrentar o frio. E nada melhor pra isso do que a charmosa região da Transilvânia, na Romênia. Nossa host Ulrike nos buscou no lugar combinado e sua calorosa recepção com um café da manhã ao lado do fogão a lenha foi um alívio para o frio que estávamos sentindo.

Apesar de termos bastante curiosidade sobre o assunto de casas orgânicas, antes de encontrarmos o perfil desse lugar na página do Workaway nunca imaginamos que um dia teríamos a oportunidade de trabalhar na construção de uma. E isso foi muito legal, não podemos negar, mas pra falar a verdade ficamos felizes pela nossa estadia nesse lugar ter sido muito mais do que isso.

Construindo casas orgânicas na Transilvânia - Workaway - Jornada Viva

O LUGAR

Estávamos em uma fazenda no vilarejo de Salicea, a poucos quilômetros da cidade de Cluj-Napoca, uma das principais cidades da Transilvânia. O vilarejo ficava no meio de uma grande área de bosques e morros com um visual incrível. E como chegamos no começo do outono, pudemos presenciar a mudança de cores das folhas das árvores, o que nos proporcionava vistas diferentes a cada dia.

A família com quem ficamos não era romena, mas austríaca, e era composta pelos nossos hosts Peter e Ulrike e seus filhos Lachi e Chippie. Na fazenda ficava a casa deles e também os terrenos das casas que eles estavam construindo. E em meio a tudo isso vários animais como cavalos, burros, cabras, um gato, um cachorro e um veado que eles acabaram adotando porque ele era cego e órfão.

A gente ficou hospedado junto com outros workawayers em uma casinha inacabada, bem simples e não muito confortável; tinha um pequeno aquecedor a lenha que não dava conta a noite toda e dormíamos em colchões de ar com sacos de dormir e muitas cobertas. A casa também não tinha banheiro dentro, somente um banheiro seco do lado de fora, sem luz e com muita lama para chegar lá. Normalmente isso não seria um problema pra nenhum de nós dois, mas quando se é uma mulher em um certo período do mês e precisa visitar o banheiro mais de uma vez durante a noite, aí a coisa fica complicada. E pra terminar, como estava extremamente frio, durante várias noites alguns animais (não sabemos quais), entravam embaixo da casa e ficavam arranhando o chão de baixo pra cima pra tentar entrar na parte de dentro da casa que estava um pouco mais quente do que fora. E eles rosnavam enquanto faziam isso! Mas na verdade nada disso realmente prejudicou a nossa experiência, só a deixou mais rústica e autêntica.

Pra tomar banho a gente usava o banheiro que ficava na casa principal deles, que ficava um pouco longe da casa onde dormíamos e também ficava fechada durante a noite. Era na casa deles também que fazíamos todas as refeições e onde geralmente passávamos o dia depois do trabalho.

Construindo casas orgânicas na Transilvânia - Workaway - Jornada Viva

A casinha onde dormíamos junto com os outros workawayers.

O TRABALHO

As casas são construídas utilizando materiais naturais como a palha, que serve de isolante térmico entre as paredes, a argila para o reboco e o sapé, que faz toda a cobertura para o telhado. Tudo isso levando em conta a arquitetura e a maneira tradicional de construção de casas na Romênia.

O nosso principal trabalho foi de ajudar na construção, preenchendo as paredes com palha, colocando a tela de arame que segura a palha, colocando reboco nas paredes, e várias outras coisas que qualquer construção precisa, como carregar tijolos e fazer cimento. Trabalhávamos junto com os funcionários da construção e os outros workawayers, 5 horas por dia, somente pela manhã, e de segunda a sexta.

Foi muito interessante aprender um pouco sobre esse tipo de construção na prática, mesmo o trabalho em si tendo sido um pouco confuso, principalmente no começo. Não nos davam muitas instruções sobre o que deveríamos fazer e como quase nenhum funcionário falava inglês, nem sempre sabíamos o porquê tínhamos que fazer certas coisas, apenas fazíamos. Quem mais nos ajudou foram os workawayers que já estavam lá quando chegamos. Depois de alguns dias pudemos entender melhor a logística da construção e o que deveríamos fazer, o que ajudou bastante na situação, mas o frio e a chuva acabaram fazendo a gente não apreciar o trabalho tanto quanto gostaríamos.

Depois de duas semanas trabalhando somente na construção, tivemos também outros trabalhos que não estávamos esperando. Desenvolvemos um site para eles (Rafael) e também ajudamos o filho deles com aulas de francês (Brenda). Fora isso sempre ajudávamos a família com tarefas do dia a dia, o que era sempre muito legal e fazia a gente se sentir mais integrados como parte da família.

A EXPERIÊNCIA

Quando soubemos que iríamos ajudar a construir casas orgânicas (e ainda na Transilvânia) tínhamos em mente algo muito mais romântico do que foi na realidade. Imaginamos que seria algum projeto social ou turístico, mas quando chegamos lá e percebemos que era uma empresa familiar que estava construindo essas casas pra vender ficamos um pouco decepcionados.

Mas a verdade é que na grande maioria dos casos, o Workaway não é realmente um site para trabalho voluntário (no real sentido da palavra), apesar de ser chamado assim. Nem o WWOOF ou o HelpX. São apenas pessoas que precisam de alguma ajuda, para si mesmas ou para seus negócios, e em troca podem proporcionar ótimas experiências e muito aprendizado. Com isso em mente, podemos aproveitar muito mais as experiências.

E apesar do trabalho em si não ter começado muito agradável, depois de alguns dias pudemos conhecer um pouco melhor o lugar, as pessoas e suas intenções e tudo melhorou. Iríamos ficar por duas semanas e acabamos ficando por um mês inteiro.

Convivemos com a família no dia a dia e percebemos que a principal ajuda que eles queriam dos workawayers era na verdade a própria convivência com a família, como o próprio Peter cita no vídeo. E para nós essa convivência também foi com certeza o ponto alto da experiência. Eles têm o coração aberto para receber pessoas do mundo todo, sempre de bom humor e sempre felizes por ter alguém por perto. E essa hospitalidade se traduzia entre outras coisas em deliciosas e fartas refeições.

A casa estava sempre cheia de workawayers e sempre parecia como uma grande família. Nesse tempo que a gente esteve na fazenda, convivemos e trabalhamos com pessoas de 8 países diferentes, entre workawayers, funcionários e a própria família. Uma interação multicultural em um nível que dificilmente encontramos em outros lugares. Infelizmente perdemos uma das nossas câmeras com o registro de vários desses momentos, mas o mais importante é o que fica na lembrança.

Criamos laços de amizade que certamente nunca esqueceremos e tivemos uma experiência muito mais rica do que qualquer imagem romântica que poderíamos ter tido. E de brinde estávamos em um lugar belíssimo cercado de natureza. Precisa mais?

Construindo casas orgânicas na Transilvânia - Workaway - Jornada Viva

Com nossos hosts Ulrike e Peter e seus filhos Chippie e Lachi.

Veja também o vídeo do passeio que fizemos pela Romênia depois dessa experiência: